O HORROR DA ARTE CONTEMPORÂNEA.

A Arte Contemporânea está tocando horror nas escolinhas e escolonas de arte. Para a maioria dos professores de arte, é impossível ensinar algo que não contém regras e que, portanto, não pode ser envelopado numa cartilha, que é como essa turma gosta.
Esse tipo de gente deveria mudar de profissão urgentemente.
Ensinar culinária, por exemplo, seria uma boa.
Mas só coisa light, recheada de receitas da vovó, evidentemente.

MANEIRA SENSACIONALISTA DE EXPLICAR O QUE É ARTE CONTEMPORÂNEA.

1. Imagine que você tenha feito uma obra de arte.
2. Agora compare esse seu trabalho com alguns dos principais trabalhos de cada um dos movimentos artísticos abaixo relacionados, que vão desde o Renascimento (1300 a 1600) até o Realismo Social (1980).
3. Se a sua obra de arte NÃO SE PARECER COM ABSOLUTAMENTE NADA do que você encontrar nessa lista: parabéns ! Você acabou de criar uma OBRA DE ARTE CONTEMPORÂNEA, ou pós-moderna, como querem alguns.
4. E das duas, uma: ou você criou uma nova linha de arte, digamos assim, 100% inédita, e você então é um novo gênio da Arte Contemporânea, obviamente, ou seu trabalho muito provavelmente estará inserido num dos seguintes contextos da arte pós-moderna:
Arte Conceitual; Neoconceitualismo; Neoexpressionismo; Minimalismo ou Sensacionalismo.
5. Conclusão, por tabela: conhecer a História da Arte para não ficar reinventando a roda eternamente, na monótona estrada das mesmices...
LISTA DOS MOVIMENTOS ARTÍSTICOS
- Renascimento
- Gótico Internacional
- Classicismo
- Secularismo
- Arte Monumental
- Humanismo
- Idealismo
- Arte Perspética
- Ilusionismo
- Naturalismo
- Maneirismo
- Barroco
- Alegorismo
- Classicismo Barroco
- Pietismo
- Sectarismo
- Gesticulação
- Emocionalismo
- Caravaggismo
- Absolutismo
- Rococó
- Academicismo
- Neoclassicismo
- Romantismo
- Orientalismo
- Medievalismo
- Pré-rafaelismo
- Realismo
- Materialismo
- Impressionismo
- Neoimpressionismo
- Secessionismo
- Esteticismo
- Simbolismo
- Pós-impressionismo
- Modernismo
- Fauvismo
- Primitivismo
- Expressionismo
- Cubismo
- Futurismo
- Dadaísmo
- Suprematismo
- Construtivismo
- Neoplasticismo
- Surrealismo
- Espacialismo
- Expressionismo abstrato
- Realismo Social

ARTE CONTEMPORÂNEA OU: CINCO FORMAS DO FEIO PRA CHUTAR O PAU DA BARRACA.

Durante muito tempo o Feio foi banido das análises teóricas no domínio estético, por duas razões principais: devido ao usocapião do Belo naquele domínio, e também devido à tradição metafísica que carimbou o Feio como o lado negativo do Belo.
Porém, com a ampliação do seu próprio conceito a partir do século XX, a arte tornou-se reflexiva e incorporou o Feio para questionar seus próprios fundamentos.
Se antes disso o Feio era apenas tolerado na arte, já que a supremacia do Belo o anulava como categoria estética, o Feio deu a volta por cima e foi integrado justamente por seu caráter repulsivo.
Ou seja: a arte contemporânea libertou o Feio da maldição de ser eternamente um reles negativo fantasmático do Belo.
Ao abarcarem para si material impuro e ao se recusarem a ocultar as forças opostas, de cuja exclusão resultam as unidades abstratas e universais das sociedades, as diversas formas do Feio na arte contemporânea parecem ter um objetivo comum: contestar o perfil da sociedade homogênea, suas convenções e poder.
Eis as cinco principais formas do Feio, para chutar o pau da barraca:
1. HUMOR: É o FEIO LIGHT. Como matéria risível, o que o humor faz é ampliar e expor o detalhe, transgredindo as normas. O humor é um strip-tease impossível da realidade.
2. KINISMO: É o FEIO INTERVENCIONISTA de caráter radical, que bate de frente com as convenções sociais e os poderes estabelecidos.
3. GROTESCO: É o FEIO ANTI-METAFÍSICO por excelência, adepto da destruição das hierarquias e do nivelamento geral. Suas principais formas atuais são caracterizadas pelo "corpo aberto" e pelo "hibridismo".
4. ARTE ABJETA: É o FEIO REVOLTADO contra o processo de formação da identidade. Sua matéria prima predileta são os materiais abjetos e os tabus recalcados pela sociedade.
5. MONSTRUOSO: É o FEIO DESUMANIZADO, a perda do elemento humano. A supressão das desigualdades dentro de um sistema opressor, que prima pela perfeição. O monstruoso é a face cristalizada da morte.

ARTEIMBRÓGLIO: A LOUCURA DA RELAÇÃO DA ARTE COM A LOUCURA.

Felizmente, na época de Nietzsche e de Sartre não existia Rivotril. Caso contrário, ambos não teriam escrito o que escreveram.
Ambos eram pirados de carteirinha, mas na Filosofia pouco importa se o sujeito tem o telhado corrido ou não; o que vale é a produção.
Já na Arte as coisas não se passam assim.
Para o escultor e pintor francês Jean Dubuffet, por exemplo, a arte produzida pelos lunáticos internados em hospitais psiquiátricos é a arte pura, já que não foi contaminada pela cultura.
Entretanto, para inúmeros intelectuais, como o crítico e ensaísta Camilo Osório, não existe obra de arte sem consciência e intencionalidade.
Nessa perspectiva, uma pintura de Fernando Diniz ou mesmo o manto de Arthur Bispo do Rosário não são objetos artísticos.
Esse arteimbróglio já vem de longa data e tudo indica que ainda vai longe, caso ninguém demonstre claramente que tudo não passa de uma armação filosófica de muito mau gosto, contra a liberdade e a Arte.

Imagem abaixo: "O manto" - Arthur Bispo do Rosário


ARTE QUE PODE MATAR.

O artista Richard Serra empilhou chapas que pesam horrores, num equilíbrio instável, que podem desabar a qualquer momento, fazendo com que os espectadores virem pastel.
Ed e Nancy Reddin criaram uma escultura roleta russa que pode disparar uma bala direto na cara do freguês. Como se fosse uma loteria, a escultura foi programada para disparar aleatoriamente uma vez a cada 10.000 anos. Para ficar na frente da coisa os visitantes tem que assinar um termo isentando a galeria de qualquer tipo de responsabilidade.
A escada de Mark Griffin, obra de arte que possui cerca de 40 metros de altura, feita concebida para ser escalada pelos observadores sem qualquer equipamento de segurança.
Pra finalizar, a catraca de Chris Burden, obra de arte que cada vez que é acessada faz com que um eixo empurre as paredes da galeria, até que a mesma desabe um dia na cabeça dos espectadores.






SOBRE ARTE E REALIDADE.

Através do Expressionismo, os modernistas discutiram se a arte deveria investir nas emoções ou nos estados mentais.
O Neoplasticismo e o Simbolismo foram movimentos que se debruçaram sobre a ordem espiritual.
A função social foi o principal foco do Construtivismo e o Surrealismo se voltou para o inconsciente.
O Cubismo se ocupou com a natureza das representações enquanto o papel social da arte na sociedade capitalista e burguesa foi a pauta principal do Dadaísmo e por aí vai.
O próprio Abstracionismo, que só aparentemente se parece com uma convulsão do nada, tem suas unhas e dentes cravadas na realidade.
Ou seja: a principal característica de qualquer movimento artístico catalogado pela História da Arte sempre foi o modo através do qual determinado grupo de artistas se conectou com a realidade através de sua arte.

SOBRE O MEU "HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS".

Deixando de lado a velha cartilha acadêmica - que até hoje é surreal - , a história da arte é, antes de mais nada, uma vasta história de paixões, recheadas com muita inveja, ódio, futilidades, traições, fofocas, rancores...
Enfim, a história da arte é um vasto mundo de boçalidades, permeado por uma meia dúzia de pingos de bondade, sinceridade, lealdade.
Coisa que, aliás, não poderia ser diferente, já que artistas são seres humanos, e seres humanos fazem parte de um projeto que, ao que tudo indica, parece que não deu muito certo.
É dentro dessa perspectiva, qual seja, a da realidade como ela é, que eu conto as minhas "Histórias da Arte Politicamente Incorretas", e elas têm feito sucesso.
Tempos atrás, eu contei a história do Maneirismo, um importante movimento artístico que ocorreu na Europa, mais ou menos na época em que o Brasil foi descoberto, e até hoje chegam e-mails de pessoas interessadas no tema.
Na verdade, o que mais siderou a plateia, digamos assim, foi a personalidade sombria dos três gênios que podem ser considerados como os grandes representantes do Maneirismo: Pontormo, Parmigianino e Rosso.
Aqui vai uma palinha da loucura de cada um desses caras, começando com Pontormo.
Com o passar do tempo, o medo de tudo e inclusive da morte tomou conta do artista, da cabeça aos pés, a ponto dele mandar construir uma casa extremamente alta para se isolar do mundo, cujo único acesso era uma escada retrátil, que Pontormo recolhia após chegar lá em cima.
Além de se isolar completamente e de se tornar hipocondríaco ao extremo, Pontormo também não era lá muito amável com os que iam visitá-lo: costumava urinar e jogar fezes em seus visitantes, detritos que estocava em baldes especialmente decorados e reservados para esse fim.
Quanto a Parmigianino, cuja aparência barbuda e cabeluda deve ter influenciado os hippies dos anos 60, o artista não pagava ninguém, era o rei do calote, e suas dívidas acabaram se tornando impagáveis.
A partir daí, completamente desnorteado, Parmigianino abandonou a pintura e decidiu tornar-se alquimista.
Durante muito tempo o artista tentou transformar chumbo em ouro para pagar as contas, sem sucesso algum: morreu completamente louco, coberto de dívidas e em andrajos.
Finalmente, Rosso, talvez o mais sinistro dos três.
Rosso morava com um macaco que, segundo o artista, já tinha sido seu amigo em vidas passadas. Mas o grande barato de Rosso era outro: apreciar matéria em decomposição, fetiche mórbido que o levava constantemente a desenterrar cadáveres, para sentir seu cheiro e apreciar-lhes a carne pútrida esfarelando ao vento.
Há quem afirme que às vezes Rosso provava dessa matéria acinzentada, como se fosse refinada iguaria.
Nas imagens abaixo: "Madona" de Parmigianino; a "Descida da Cruz", de Pontormo; e "Moises e as filhas de Getro", de Rosso.




HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: MOVIMENTO FUTURISTA: IDOLATRIA DA GUERRA E ÓDIO CONTRA AS TRADIÇÕES ARTÍSTICAS.

O Futurismo foi lançado em 1909, através da publicação Le Futurisme, de Fillipo Tommaso Marinetti, num jornal francês.
Mas que época era essa ? Uma época em que o mundo estava maravilhado com os automóveis, com as máquinas, e com todas as novas tecnologias que acabavam de surgir.
É nesse panorama, essencialmente urbano, que os artistas futuristas pregavam a destruição de toda a arte e cultura do passado, alegando que a tradição artística ocidental havia se tornado um peso morto que oprimia as futuras gerações.
Os futuristas idolatravam a velocidade, as armas, a energia, o progresso, as multidões - que para eles representava uma força política importantíssima -, e sobretudo a violência.
Para os futuristas, sem guerra não havia possibilidades de mudança, razão pela qual a guerra e a brutalidade eram vistas pelo grupo com algo bom, capaz de alavancar o progresso da humanidade.
É por isso que essa gente logo, logo iria se tornar fascista de carteirinha, com medalha do Mussolini espetada no peito.
Giacomo Balla, Carlo Carra, Gino Severini e Umberto Boccioni, são alguns nomes destes notáveis... como dizer... notáveis cascas grossa.
Cascas grossas sim, sem a menor sombra de dúvidas, porque o pau comia até mesmo entre eles se fosse preciso.
Querem ver ? Pois bem. Havia os futuristas de Milão e os futuristas de Florença.
Certa vez um sujeito chamado Ardengo Soffici, que era da patota de Florença, escreveu um artigo descendo a lenha na Exposição Futurista de Milão.
Os artistas milaneses ficaram roxos de raiva, pegaram um trem e foram até Florença caçar Soffici como se fosse um bicho e, rapidamente, encontraram seu desafeto, batendo papo com os amigos no café Guibbe Rosse.
Soffici apanhou tanto que perdeu todos os dentes da boca, teve um olho furado e uma perna e várias costelas trituradas.
Mas a coisa não acabou por aí.
Revoltados ao verem o que sobrou de Soffici espalhado pelo chão, os amigos da vítima chamaram outros amigos e o pau quebrou feio entre as duas turmas.
Resultado: após várias horas de pancadaria e quebração de ossos, mesas e garrafas, o café Guibbe Rosse foi praticamente destruído pelos artistas enfurecidos, que foram parar na delegacia de polícia. E se alguém pensa que as duas turmas ficaram de mau após esse desastroso encontro, se engana redondamente.
Na verdade, foi justamente depois da pancadaria no café Guibbe Rosse que os futuristas de Milão e os de Florença ficaram amigos pra valer, e continuaram, juntos, a tocar horror no mundo da arte, por um bom tempo ainda.
Antes que alguém levante a questão, a reposta é sim: no início os futuristas andaram flertando com o Neoimpressionismo, mas no final acabaram se apaixonando pelo Cubismo.
Depois dos horrores da segunda guerra mundial, o Movimento Futurista perdeu sustentação e se esvaziou de vez.
Imagens abaixo: "Line of speed" e "Velocity of cars and light", de Giacomo Balla, e retrato do artista.







HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: DIFERENÇA ENTRE ARTE E CULTURA.

Dentro de uma abordagem antropológica, comecemos enumerando algumas coisas que pertencem à Cultura, sem esquecer de inserir a Arte no final.
Dentro da Cultura temos coisas como: arquitetura, educação, moradia, remédios, engenharia, urbanismo, segurança, comemorações, festivais, mídias, guerras, medicina, tradições, luxo, lixo, marginalidade, política, futebol, carnaval, banditismo, matemática, ciência, religião, tecnologia, arte etc.
Ponto um: A Arte faz parte da Cultura; ou seja: Arte e Cultura são coisas totalmente diferentes, embora a primeira esteja aninhada dentro da segunda.
Ponto dois: Nem toda manifestação cultural é arte, assim como nem toda obra de arte é manifestação cultural.
Querem ver ? Pergunta: toda música é arte ? Evidente que não. A maioria das músicas são manifestações culturais e não obras de arte.
Ponto três: Arte e Cultura possuem diferenças radicais.
Vamos lá:
1. A Cultura é necessária, é impossível viver sem ela. Ao contrário, é plenamente possível viver sem Arte. Nesse sentido, diz-se que a Arte é "gratuita" - não confundir com inútil -, já que qualquer um pode se envolver com ela quando bem entender.
2. A Cultura integra, cuida, procura reunir e equilibrar. Já a Arte incomoda, contesta, expõe, revela o que a Cultura muitas vezes tenta varrer para debaixo do tapete das tradições.
3. Enquanto a Cultura descobre verdades, a Arte gera problemas.
4. A Cultura está presa às tradições, aos costumes, ao bom senso, às hierarquias, à sabedoria. A Arte está livre dessas amarras, e muitas vezes as rejeita com vigor.
5. A Cultura é narrativa, geradora de histórias que mantém a estabilidade do sistema, enquanto a Arte é questionadora, problematizadora.
6. A Cultura agrega tudo com o que existe, a Arte rompe com o existente, se alimenta da desconstrução.
7. A Cultura pode ser explicada, mas é impossível explicar a Arte, devido à sua multiplicidade de sentidos.
8. A Cultura aponta para o mundo como ele é; a Arte aponta para as possibilidades do mundo, para o novo.
9. A base da Cultura é o equilíbrio, a da Arte, o desequilíbrio. Como síntese final, entre outros, o item nº 10 poderia ser escrito assim: " A Cultura é "boazinha" e a Arte não.

Imagem abaixo: Protesto em defesa dos índios Guarani-Kaiowás na escada da Catedral de Sorocaba.


HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: UM CRETINO INVEJOSO CHAMADO PICASSO.

Bernard Buffet foi o pintor mais importante do mundo após a segunda guerra mundial. Importante, famoso e rico.
Aos trinta anos Bernard fez uma fortuna que nenhum outro artista até então sequer sonhara fazer, simplesmente vendendo obras de arte.
As pessoas comuns adoravam as obras de Buffet, e nos anos 70 seu estilo dominou inclusive a decoração de infinitos lares por todo o planeta.
Embora sempre tenha sido admirado por críticos de todo o mundo, na França, sua terra natal, Buffet sofreu uma das maiores perseguições já vista no mundo das artes.
Por puro ciúmes e movido por uma inveja sem precedentes, essa perseguição inaudita foi liderada por Pablo Picasso, que detestava Buffet, pelo simples fato do artista rivalizar com sua fama.
Picasso também influenciou André Malraux a odiar Buffet – Malraux, que pouco ou quase nada sabia de arte, e que logo depois se tornaria ministro da cultura de Charles de Gaulle.
Na esteira de Picasso, Pierre Bergé, amante e parceiro de negócios do estilista Yves Saint Laurent, também tornou-se outro poderoso, desleal e gratuito inimigo de Buffet e sua obra.
Apesar de em 1955, Bernard Buffet ter sido escolhido por 100 críticos como o mais impressionante jovem pintor do mundo, em 1960 eclodiu na França, com toda intensidade, a campanha de desmoralização final do artista, liderada por Picasso.
E Picasso não descansou até banir Buffet definitivamente de todas as galerias e academias francesas de arte, sem que Bernard Buffet jamais lhe tivesse dirigido uma palavra de indelicadeza ou algo que o valha.
Por influência de Picasso, durante décadas o museu nacional de arte moderna do centro Georges Pompidou manteve trancadas dezenas de obras de Buffet, com o intuito de que o mundo, e principalmente os franceses, o esquecessem.
Mas os ventos mudaram, e o desterro acabou.
Recentemente, as obras de Buffet foram destrancadas e expostas ao lado de mestres como Matisse, Braque e Léger.
Bernard Buffet se suicidou em 1999.







HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: UM BAD BOY CHAMADO CARAVAGGIO.

Até hoje, nenhum movimento artístico teve os trabalhos de seus integrantes tão invejados como o pessoal do Renascimento.
Trabalhos como os de Leonardo da Vinci, Michelangelo Buonarroti, Rafael, Ticiano, Botticelli, Donatello,Tintoretto, Vasari, entre outros, foram alvos de inveja e falação praticamente em todos os movimentos artísticos que sucederam o Renascimento.
Por uma razão muito simples: com raríssimas exceções, a maioria dos artistas sempre se sentiu impotente diante do talento e da genialidade do time renascentista.
Uma dessas exceções chamava-se: Michelangelo Merisi Caravaggio.
Caravaggio foi um dos poucos talentos na história da arte capaz de bater de frente com o talento de um Leonardo da Vinci ou de um Michelangelo.
Não é a toa que Caravaggio fez escola, e o caravaggismo ganhou adeptos em todo mundo. Caravaggio fez o seguinte: o que até então era resplandecência nas obras renascentistas, foi convertido por ele em claro-escuro, permeado por suas figuras recortadas, dentro de uma atmosfera altamente dramática.
Mas não foi só isso. Caravaggio também trouxe para suas telas o profano, quase nunca conjugado pelos renascentistas, que simplesmente passou a existir ao lado do espiritual. Afora isso, há dezenas de outras inovações idealizadas pelo artista.
Mas ninguém é perfeito, e o que a obra de Caravaggio tem de genial, seu autor tinha de bandido.
Além de assassino, também era ladrão profissional e cafetão - há registros que ganhou dinheiro explorando prostitutas por algum tempo.
“Spe nec, nec metu” (“sem esperança, sem medo”), esse era o lema da gangue a qual Caravaggio pertencia, chefiada por um tal de Onorio Longhi.
O grupo costumava sair à noite, com todos seus integrantes montados a cavalo e vestidos como cavaleiros antigos.
Durante esses passeios noturnos, eram cometidas diversas atrocidades pelas ruas de Roma, principalmente o assassinato de rivais artísticos.
Pouco tempo depois de ter assassinado um desafeto seu com facadas na virilha, Caravaggio enfrentou um outro antigo rival, por motivo de dívida, numa taverna decadente.
Os dois lutadores saíram muito machucados, e Caravaggio nunca se recuperou completamente dos golpes de sabre que o atingiram naquela noite.
A partir desse episódio, começou a decadência física do artista e terrível bad boy, que tempos depois morreria em circunstâncias misteriosas, aos 38 anos de idade.
Caravaggio foi um de gênio do mal.

Imagens abaixo: "Emmaus"; "Judith"; Captura de Cristo" e "Enterro de Cristo", obras de Caravaggio.






HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: SALAI, O AMANTE ENDIABRADO DE LEONARDO DA VINCI QUE HERDOU A MONALISA.

Na Florença do Renascimento, a sodomia era considerada uma transgressão gravíssima, passível de pena de morte. Homossexuais iam pra fita em série, massacrados pela boçalidade do sistema, e Leonardo da Vinci não foi pra fita por um triz.
Mas antes, uma palavrinha para ilustrar, e já retomo o assunto.
No artigo escrito em 1910, "Leonardo da Vinci e uma Memória da sua Infância", Sigmund Freud analisa um apontamento de Leonardo, no qual o artista afirma que foi atacado por uma ave de rapina quando ainda era bebê, tendo o pássaro lhe enfiado a cauda na boca repetidas vezes.
O pai da Psicanálise viu nessa narrativa um simbolismo fálico por excelência, a atestar a homossexualidade de Leonardo.
Embora muitas vezes Freud também tenha sido um grande chutador, dessa vez parece que ele acertou em cheio: bingo !
Retomando, Leonardo da Vinci não curtia mulheres, chegando mesmo a escrever indelicadezas que certamente retratam o grande conflito interno do artista em relação ao sexo oposto.
Como no caso dessa observação, que consta num de seus manuscritos: "o ato da procriação e tudo com ele relacionado é tão nojento que a raça humana rapidamente desapareceria se não existissem caras bonitas e inclinações sensuais."
Detalhe: entre os seus milhares de esboços anatômicos, existem apenas dois desenhos minuciosos dos órgãos reprodutivos femininos, um dos quais encontra-se propositalmente distorcido.
Quando ainda era muito jovem e trabalhava no atelier de Andrea del Verrocchio, Leonardo da Vinci chegou a responder processo no tribunal florentino, acusado de ter praticado sodomia com o prostituto Jacopo Saltarelli.
Leonardo foi absolvido por falta de prova e o ocorrido não o intimidou.
Michael White, em "Leonardo: The First Scientist", faz ver que é provável que o julgamento tenha provocado em Leonardo um sentimento de cautela em relação à sua sexualidade, mas tão somente isso: "não há muitas dúvidas de que Leonardo continuou a ser um homossexual praticante", arrematou White.
Vasari, um dos mais importantes e respeitados biógrafos do artista, descreve dois belos jovens como os principais "amados de Leonardo", cujas relações duraram longos anos.
Ambos foram seus alunos: Gian Giacomo Caprotti da Oreno, vulgo "Salai" (no sentido de "diabinho"), que chegou à casa de Leonardo em 1490, com apenas 10 anos, e Francesco Melzi, filho de um aristocrata de Milão, que se tornou seu aprendiz em 1506.
Salai é descrito por Vasari como um "gracioso e bonito rapaz com um belo cabelo ondulado" e seu nome é referido no verso de um desenho erótico de Leonardo, denominado: "The incarnate angel" (O anjo encarnado), desenho que ao que tudo indica é uma variante do "São João Batista" de Da Vinci.
Leonardo tinha razão em taxar seu discípulo de endiabrado: um ano após ter recebido Salai, Leonardo fez uma lista de suas qualidades, entre as quais incluiu: ladrão, teimoso, mentiroso, glutão e hipócrita, entre outros.
Várias vezes Salai foi pego roubando dinheiro e objetos de valor, costumava gastar fortunas em roupas e mentia muito.
Apesar de tudo, Salai manteve-se firme ao lado de Leonardo, como seu assistente e amante, por trinta anos.
Como gratidão, em seu testamento Leonardo deixou para Salai a Monalisa, obra que já era muito valorizada naquela época.
Salai morreu num duelo, acontecimento que deixou Leonardo extremamente abalado.
Vinte anos mais tarde, o conde Melzi, o outro "amado" principal, passaria a cuidar de Leonardo até o fim de seus dias.
Sobre sua intimidade com o gênio florentino, Melzi escreveu: "sviscerato et ardentissimo amore" (profundo e ardentíssimo amor). Melzi amou Leonardo profundamente e o acompanhou até o fim em seu leito de morte.
Entretanto, durante toda a vida foi o retrato de Salai que Leonardo manteve em sua cabeceira, de Salai como São João Batista, sorrindo enigmaticamente e apontando com um dos dedos para o céu.

Imagens abaixo: "O anjo encarnado" e "São João Batista", de Leonardo da Vinci.




HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: A SEMANA DA ARTE MODERNA E A BAIXARIA CONTRA A PINTORA ANITA MALFATTI.

A Semana de Arte Moderna ocorreu em fevereiro de 1922, em São Paulo.
O movimento revolucionou a linguagem de praticamente todos os segmentos da arte: poesia, música, literatura, artes plásticas, dança…
Participaram do evento nomes consagrados como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tácito de Almeida, Di Cavalcanti, entre outros – infelizmente, Tarsila do Amaral, um dos grandes esteios do modernismo brasileiro, não participou porque se achava em Paris.
A Semana de 22 introduziu definitivamente o modernismo no Brasil, o que não aconteceu por acaso, e sem luta.
Na realidade, o estopim do movimento ocorreu quatro anos antes, precisamente quando o escritor e crítico de arte Monteiro Lobato esculachou uma exposição da pintora Anita Malfatti.
Anita, que era filha de um italiano com uma norte-americana, foi estudar pintura na Europa e nos Estados Unidos e ao retornar ao Brasil em 1917 resolveu montar uma exposição para mostrar o que havia aprendido lá fora, principalmente com os artistas expressionistas.
Tudo ia bem até que, na metade da exposição, Monteiro Lobato escreveu um artigo no jornal Folha de São Paulo intitulado “Paranóia ou Mistificação ?”
Aqui vai uma palinha desse texto infeliz do Lobato, que originalmente é longo: “Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas(…) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Embora eles se dêem como novos, precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação.(…) Essas considerações são provocadas pela exposição da senhora Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia”.
Foi o que bastou para que a caipirada paulistana da época invadisse a exposição e quebrasse tudo, ao mesmo tempo que devolviam aos pedaços as obras de arte que haviam comprado da artista e, aos berros, exigiam o dinheiro de volta.
Anita Malfatti foi empurrada, derrubada no chão e chegou a apanhar. A artista, que só tinha 24 anos, entrou em depressão profunda, passou a ter medo de pintar e de sair de casa, e levou muito tempo para se recuperar do absurdo trauma que Lobato lhe impôs.
Mas a malvadeza do autor de Urupês contra a jovem pintora não saiu de graça.
Sensibilizados com o acontecimento, centenas de artistas da vanguarda brasileira se mobilizaram incontinenti e se uniram em torno de um ideal: colocar a pique a arte do século XIX a qualquer custo, acabar de vez com o parnasianismo poético medíocre e superado que vigia naquela época.
E assim foi até a batalha final, que aconteceu naquela semana ensolarada de 22, quando a liberdade, rebocada pela Arte, mais uma vez venceu a boçalidade e a tirania.



HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: UM BUFÃO REAÇA CHAMADO DALÍ.

Salvador Dalí já era excêntrico desde os tempos de estudante em Madrid, quando chamava a atenção para si mesmo através de seus cabelos longos e das meias e calções de futebol, que costumava usar nas festas e eventos em que comparecia.
Quando perguntaram quais os pintores contemporâneos que ele mais admirava, respondeu: "em primeiro lugar, Dalí, depois de Dalí, Picasso, e depois de Picasso nenhum outro."
Até então nenhum artista tinha se autopromovido tanto quanto Dalí, cuja marca era o bigodaço encerado, com as duas pontas voltadas para cima, em forma de antenas, e sobre o qual ele dizia o seguinte: “Como eu não fumo, decidi deixar crescer o bigode. É melhor para a saúde. No entanto, eu sempre carregava uma caixa de cigarros cravejada de pedras preciosas, na qual, em vez de tabaco, foram cuidadosamente colocados vários bigodes, estilo Adolphe Menjou. Eu os oferecia educadamente para os meus amigos: ‘Bigode? Bigode? Bigode?’. Ninguém se atreveu a tocá-los. Este foi o meu teste em relação ao aspecto sagrado de bigodes”.
Um pequeno sino de prata, juntamente com uma capa mundana, também eram usados por Dalí para chamar a atenção das pessoas para o seu inconfundível bigode.
Na Exposição Surrealista Internacional de Londres, Dalí, acompanhado por dois cães galgos e carregando um taco de bilhar numa das mãos, compareceu ao evento metido num traje de mergulho.
A justificativa era que vestido daquela forma ele estaria “mergulhando nas profundezas da mente humana."
Dalí costumava referir-se a si mesmo na terceira pessoa, e também não poupava auto elogios nos programas de televisão dos quais participava com uma certa frequência, como o famoso “60 minutes", de Mike Wallace.
Expulso da Academia de Artes, tornou-se amigo de pessoas influentes no circuito cultural, como o poeta Federico García Lorca, o cineasta Luis Buñuel e o pintores Miró e Pablo Picasso, os quais o levaram a fazer experiências com o Cubismo e o Dadaismo.
Até aí Dalí não passava de um bufão caricato, que desenhava e pintava bem.
Foi somente após ter entrado para o Movimento Surrealista, fundado por André Breton, que Dalí se firmou como artista plástico, e enriqueceu.
O Surrealismo foi um importante movimento político, filosófico e artístico, que pregava o aniquilamento da cultura tradicional, na esteira do Dadaismo.
Sem Breton e o surrealismo, Dalí não teria chegado onde chegou. Mas Dalí traiu o movimento, e em 1939 foi expulso do grupo.
Salvador Dalí não era apenas um artista excêntrico. Também era interesseiro, dinheirista, reacionário e fascista.
Na Guerra Civil Espanhola ficou ao lado do ditador Franco, cujo regime inaugurou o método dos "passeios": ir procurar pessoas em suas casas para depois "passeá-las", ou seja, fuzilá-las à noite e deixá-las nas valetas - no total, foram 197.000 "passeados" e 200.000 exilados.
Para os que querem conhecer mais de perto as excentricidades e bufonarias de Dalí, sugerimos o livro "As Confissões Inconfessáveis de Salvador Dalí", de autoria do próprio artista.
Seguem dois parágrafos da obra: "O grupo surrealista era para mim uma espécie de placenta que me nutria e eu acreditava no surrealismo como nas tábuas da Lei. Assimilava com um apetite incrível e insaciável toda a letra e o espírito do movimento, que aliás correspondia tão exatamente à minha natureza profunda, que cheguei a encarná-lo com a maior naturalidade. Na verdade, a dissimulação desse processo era tanto mais paradoxal, quando eu era sem dúvida o mais surrealista do grupo – o único talvez – e que me acusavam de fato de ser surrealista demais."
"Mas eu compreendi desde esse dia que estava na presença de intelectuais feitos de papel higiênico, enrijecidos por preconceitos pequenos-burgueses e em quem os arquétipos da moral clássica haviam depositado marcas indeléveis. Eles tinham medo da merda. Da merda e do ânus. O que existe de mais humano, no entanto, e de mais necessário a ser superado? A partir deste instante, eu decidira obcecá-los com o que eles mais temiam. E quando inventei os objetos surrealistas, tive o prazer íntimo e profundo, enquanto os amigos do grupo se extasiavam com seu funcionamento, de me dizer que esses objetos reproduziam exatamente as contrações de um c_ em ação e que eles admiravam o próprio medo."