HISTÓRIAS DA ARTE POLITICAMENTE INCORRETAS: SALAI, O AMANTE ENDIABRADO DE LEONARDO DA VINCI QUE HERDOU A MONALISA.

Na Florença do Renascimento, a sodomia era considerada uma transgressão gravíssima, passível de pena de morte. Homossexuais iam pra fita em série, massacrados pela boçalidade do sistema, e Leonardo da Vinci não foi pra fita por um triz.
Mas antes, uma palavrinha para ilustrar, e já retomo o assunto.
No artigo escrito em 1910, "Leonardo da Vinci e uma Memória da sua Infância", Sigmund Freud analisa um apontamento de Leonardo, no qual o artista afirma que foi atacado por uma ave de rapina quando ainda era bebê, tendo o pássaro lhe enfiado a cauda na boca repetidas vezes.
O pai da Psicanálise viu nessa narrativa um simbolismo fálico por excelência, a atestar a homossexualidade de Leonardo.
Embora muitas vezes Freud também tenha sido um grande chutador, dessa vez parece que ele acertou em cheio: bingo !
Retomando, Leonardo da Vinci não curtia mulheres, chegando mesmo a escrever indelicadezas que certamente retratam o grande conflito interno do artista em relação ao sexo oposto.
Como no caso dessa observação, que consta num de seus manuscritos: "o ato da procriação e tudo com ele relacionado é tão nojento que a raça humana rapidamente desapareceria se não existissem caras bonitas e inclinações sensuais."
Detalhe: entre os seus milhares de esboços anatômicos, existem apenas dois desenhos minuciosos dos órgãos reprodutivos femininos, um dos quais encontra-se propositalmente distorcido.
Quando ainda era muito jovem e trabalhava no atelier de Andrea del Verrocchio, Leonardo da Vinci chegou a responder processo no tribunal florentino, acusado de ter praticado sodomia com o prostituto Jacopo Saltarelli.
Leonardo foi absolvido por falta de prova e o ocorrido não o intimidou.
Michael White, em "Leonardo: The First Scientist", faz ver que é provável que o julgamento tenha provocado em Leonardo um sentimento de cautela em relação à sua sexualidade, mas tão somente isso: "não há muitas dúvidas de que Leonardo continuou a ser um homossexual praticante", arrematou White.
Vasari, um dos mais importantes e respeitados biógrafos do artista, descreve dois belos jovens como os principais "amados de Leonardo", cujas relações duraram longos anos.
Ambos foram seus alunos: Gian Giacomo Caprotti da Oreno, vulgo "Salai" (no sentido de "diabinho"), que chegou à casa de Leonardo em 1490, e Francesco Melzi, filho de um aristocrata de Milão, que se tornou seu aprendiz em 1506.
Salai é descrito por Vasari como um "gracioso e bonito rapaz com um belo cabelo ondulado" e seu nome é referido no verso de um desenho erótico de Leonardo, denominado: "The incarnate angel" (O anjo encarnado), desenho que ao que tudo indica é uma variante do "São João Batista" de Da Vinci.
Leonardo tinha razão em taxar seu discípulo de endiabrado: um ano após ter recebido Salai, Leonardo fez uma lista de suas qualidades, entre as quais incluiu: ladrão, teimoso, mentiroso, glutão e hipócrita, entre outros.
Várias vezes Salai foi pego roubando dinheiro e objetos de valor, costumava gastar fortunas em roupas e mentia muito.
Apesar de tudo, Salai manteve-se firme ao lado de Leonardo, como seu assistente e amante, por trinta anos.
Como gratidão, em seu testamento Leonardo deixou para Salai a Monalisa, obra que já era muito valorizada naquela época.
Salai morreu num duelo, acontecimento que deixou Leonardo extremamente abalado.
Vinte anos mais tarde, o conde Melzi, o outro "amado" principal, passaria a cuidar de Leonardo até o fim de seus dias.
Sobre sua intimidade com o gênio florentino, Melzi escreveu: "sviscerato et ardentissimo amore" (profundo e ardentíssimo amor). Melzi amou Leonardo profundamente e o acompanhou até o fim em seu leito de morte.
Entretanto, durante toda a vida foi o retrato de Salai que Leonardo manteve em sua cabeceira, de Salai como São João Batista, sorrindo enigmaticamente e apontando com um dos dedos para o céu.

Imagens abaixo: "O anjo encarnado" e "São João Batista", de Leonardo da Vinci.